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Olhar de fora: artigo do El País sobre telefonia móvel no Brasil

10/ Julho/ 2008

Saiu um interessante artigo no jornal espanhol, El País, discutindo os limites da expansão dos celulares e da conexão com a internet que estes novos e modernos aparelhos estão permitindo em escala cada vez maior. O artigo discute que o mundo inteiro tem se maravilhado com o rápido avanço da tecnologia destes aparelhos, mas que por trás dos gadgets maravilhosos, dos sonhos e das utopias que as empresas procuram pintar via marketing maciço, as possibilidades reais desta expansão são muito mais prosaicas do que parecem. (leia o artigo aqui…)

Para discutir essa contradição, o exemplo utilizado é o Brasil. No Brasil, em vista de sua condição de país periférico, há um número grande de celulares. Aproximadamente 60% da população possui aparelho. Mas o dado otimista esconde boa parte da real situação. O uso de tais aparelhos é extremamente precário. É o que na gíria chamamos de ( um tanto preconceituosamente ) de “pai de santo”, ou seja, de aparelho celular que só serve para “receber” chamadas. 80% dos chips são pré-pagos, poucos brasileiros usam para fazer ligações. Raríssimos 3% acessam a internet. Não de todo vinculado a isto, mas certamente relacionado, o Brasil é um dos países que possuem as tarifas mais caras do mundo em termos de telefonia móvel. Traduzindo, nosso acesso é ruim e caro. Usamos pouco e mal as novas ferramentas tecnológicas: resultado, não estamos tão conectados como imaginamos. Detalhe é que as empresas, ao contrário de se adaptarem à realidade do país, ao oferecer planos mais em conta e popularizar o uso, criar alternativas viáveis, preferem continuar a vender caro e para poucos os serviços mais avançados de conexão.

Aos que acreditam que isso é um mero detalhe, creio que estamos diante de um significativo exemplo de como será o acesso do Brasil nesse admirável mundo novo da tecnologia.

Google sites: um marco na questão dos sites.

22/ Maio/ 2008

Assim como o Blogger e o WordPress marcaram época no campo dos blogs, o novo serviço do Google Sites acena como um novo divisor de águas em máteria de páginas de internet.

A construção de páginas pessoais, profissionais, de grupos e comunidades é um tipo de serviço que sempre esteve presente na internet, desde muito cedo após a sua popularização. Basta lembrar do geosites, do tripod, do cjb, entre outros projetos e notar que não são propostas novas.

A idéia de oferecer páginas gratuitas aos usuários basicamente sempre esbarrou em dois tipos de erros comuns:

  • O primeiro é a dificuldade ( o enigma quase insolucionável) de transformar esse serviço em algo com viabilidade econômica. O caminho mais comum foi a tentativa de vincular a utilização de banners e publicidade, o que nunca casou bem com as expectativas dos usuários e dos produtores de conteúdo.
  • O segundo é a dificuldade da produção de conteúdo significativo. Criar uma página na internet é uma idéia que desperta muito interesse e desejo dos usuários comuns da rede, mas a realidade de qualquer tipo de publicação (seja virtual ou impressa) é um tipo de comprimisso que demanda tempo, dedicação e trabalho, que na maioria das vezes não possui nenhuma contrapartida garantida.

A partir desta observação, podemos pensar que mesmo com a oportunidade técnica (a popularização dos sites dinâmicos) garantida a todos os usuários da rede de se auto-publicarem, ainda assim temos um desafio não resolvido que se relaciona com a inexistência de motivações plausíveis para usuários comuns publicarem materiais para além de registros privados de suas vidas particulares.

Neste campo minado, os blogs cumpriram um importante avanço diante do cenário de dificuldades. Conseguriam captar os usuários-produtores de conteúdo oferecendo facilidade na auto-publicação, atrairam leitores oferecendo novos canais de conteúdo alternativo e crítico dos meios comuns de mídia-imprensa, e avançaram também nas formas de monetização, com a expansão dos anúncios associados, contextuais e das cotas de publicidade.

Isso levou muitos analistas a decretarem a morte das páginas pessoais, de pequenos grupos e similares. Em relação aos blogs elas perdem muito em dinâmica de produção de conteúdo e agilidade com o público. As páginas estáticas também não ofereceram soluções de monetização interessantes para os usuários comuns.

Um dos pontos que me parecem centrais dentre as diferenças dos Blogs e dos Sites em formato de Página, é a diferença quanto a dimensão do projeto que cada um dos formatos impõem: os blogs, por sua estrutura simplificada e ágil, permitem projetos pequenos, sobre assuntos bem específicos, permitem o formato de esboço (os “posts” rápidos). Os sites em formato de página, se por um lado oferecem potencialidade técnicas muito interessantes em termos de exposição e publicação do conteúdo, por outro eles impõem um compromisso e um trabalho muito maior para a manutenção do espaço virtual. Realizar a manutenção-atualização de um blog é muito mais fácil do que de uma página. Produzir conteúdo para uma página exige um material mais credenciado pois espera-se que aquela página estática seja um material de consulta confiável.

Com todos estes pontos negativos, será que podemos ainda apostar na viabilidade da construção de sites-páginas no futuro da internet? Pois bem, do jeito que as coisas andavam, parecia que não havia muito mais campo, a resposta era “não”. Mas o Google, com seu novo serviço de sites, parece sinalizar uma opção positiva neste campo.

Antes de comentar o serviço do Google propriamente, ainda julgo interessante comentar algumas idéias finais acerca de Blogs e Sites-página. Apesar de vencer a luta contra os sites, os blogs não conseguiram oferecer soluções para formatos de publicação mais estáticas. Como exemplo disto, podemos considerar que o formato dos blogs não facilitou a publicação de conteúdos como coletânea de artigos, livros, portifólios, galeria de imagens, crônicas, contos, colunas de escritores e demais modelos que exigem um perfil mais estático e com mais recursos.

Portanto, de acordo com nosso ponto de vista, a despeito do avanço dos blogs, o espaço das Páginas ainda existia. O que dificultava o avanço das páginas era também os obstáculos técnicos. Para montar uma página o indivíduo era obrigado a estudar o html, alugar uma hospedagem, adquirir um programa de html e ftp. Uma carga de trabalho considerável e que se torna a cada dia menos importante.

É aqui que entra o novo serviço do Google. O Google Sites conseguiu oferecer o que nenhuma outra empresa ofereceu até hoje: um mecânismo de fácil edição, que permite montar páginas bastante completas: possui topo com a possibilidade de subir o logo, menu interessante e fácil, miolo central com muitas opções de conteúdo (inclusive widgets) e rodápe. Há opções para fazer páginas com upload de arquivos, com listas de atividades e andamento de projetos, avisos, últimas contribuições. Tudo fácil de editar, sem precisar saber uma linha de html ou de php e mysql. Além disto, é possível associar muitos outros serviços do Google como o Google Docs, Google Calendário, o Picasa, o Google Video e o famigerado Youtube. Se não bastasse tudo isso, há a possibilidade de utilizar a maior parte dos widgets disponíveis no iGoogle, ou seja, a possibilidade de transformar a sua página pessoal num mini-portal pessoal.

Com isso o Google conseguiu realizar um modelo de página quase tão fácil quanto um blog, sem pecar pela qualidade e complexidade que toda a página estática deve oferecer. Com esse grau de qualidade e por ser um serviço gratuito, acredito que este passo adiante é um marco na questão dos sites e da auto-publicação. Se outras empresas seguirem esta pista aberta pelo Google e começarem a disputar mercado neste tipo de serviço, em breve os Sites pessoais ou de pequenos grupos complexos, bem feitos e com diversos recursos serão tão comuns quanto as contas de e-mail. Quando isso acontecer, restará o desafio do conteúdo, mas aí já não será responsabilidade do Google ou de outra empresa, e dependerá sim da nossa disposição e de uma nova cultura de compartilhamento.

Kindle – leitor de e-books: um caso complicado

5/ Maio/ 2008

Kindle é um leitor de livros eletrônicos lançado pela maior livraria virtual do mundo, a Amazon. O aparelho possui formato semelhante ao de um livro real (peso, tamanho e visor) e a sua aposta é na praticidade e portabilidade que o o formato digital oferece: é possível portar aprox. 200 livros digitais com ele (nada demais para os aparelhos de hoje).

A proposta é que o usuário compre livros direto da Amazon, via conexão de celular (evdo/cdma – salvo engano) e que o aparelho não tenha nenhuma conexão com o computador: tudo que o usuário comprar fica no seu aparelho e só pode ser lido pelo próprio aparelho.

O lançamento deste produto traz uma situação interessante para se discutir a questão da tecnologia no contexto atual. A percepção é a de que embora o aparelho tenha sido avaliado e analisado sob diversos aspectos (sobretudo sobre suas questões técnicas), o seu lançamento e a compreensão do seu verdadeiro significado como um novo paradigma tecnológico ainda permanece muito confusa para a maioria de nós, usuários e consumidores de informações e tecnologia.

De modo geral, os sites de tecnologia tem simplificado a questão mostrando que o aparelho já nasce velho, tecnologicamente antiquado para disputar com os padrões atuais dos demais gadgets que proliferam diariamente (antes e depois do iPhone). Por esse valor ($399 dólares é o preço inicial sugerido) sobrariam opções com aparelhos e hardwares mil vezes mais equipados e poderosos.

Além da limitação técnica, o outro ponto supostamente negativo é o formato de proteção aos direitos autorais adotado pelo equipamento, o DRM. Isto significa que o usuário só pode incluir livros digitais por meio de compra (via download wireless na livraria credenciada) e este arquivo digital fica absolutamente limitado ao uso apenas naquele aparelho (não pode ser compartilhado, reproduzido, modificado, etc). Segundo muitos, isto é um modelo atrasado de negócios, porque as tendências do mundo atual apontam para a inteligência coletiva, compartilhamento, colaboração e circulação livre da informação.

Para contrabalancear estas criticas técnicas, o Kindle possui uma tela voltada e apropriada para a leitura de documentos digitais, baseada numa tecnologia chamada de e-ink. Diferente dos displays tradicionais dos computadores, esta tecnologia não usa luz interna para projetar os textos no visor, o que possibilita a leitura em ambientes abertos com muita luz, e produz páginas digitais muito semelhantes a dos livros reais. (Outros aparelhos já possuem essa tecnologia, mas limitemo-nos a avaliar somente este caso)

Na maioria dos casos, o debate pára por aqui. As disputas orbitam entre desqualificar o produto por suas limitações de hardware e design, ou então enfatizar a tela e-ink e a possibilidade de um novo mundo de documentos totalmente digitalizados. Creio que as duas posturas, tanto as favoráveis e as negativas perdem de vista a singularidade do caso: um evento muito interessante para se pensar a complexidade do papel exercido pela tecnologia hoje.

Vou tentar explicar melhor o que seria essa singularidade.
É no mínimo curioso que com o nosso avanço tecnológico o documento digital não tenha suplantado totalmente as formas impressas.

Coloco isso não para afirmar que a maioria de nossa grandeza cultural, que se encontra em formatos anteriores ao digital, seja desprezível. Ou, que as limitações técnicas do formato digital e as dificuldades de digitalização sejam pequenas. Nenhuma destas questões são pequenas ou irrelevantes.

Mas creio que os documentos digitais, em especial, os e-books estão dados desde o início do avanço da informática. E isso é o curioso da história: os e-books sempre foram uma grande espectativa (uma grande promessa digital), que praticamente nunca se realizaram, sempre ficaram muito aquém de uma transformação do cotidiano dos livros e dos leitores. Pode ser uma consideração particular e equivocada, mas embora tenha em computador próprio muitos e-books e um apreço especial por eles, o livro impresso ainda constitui a ferramenta principal de trabalho e estudos (por sua facilidade, viabilidade, credibilidade, etc.).

Estas considerações nos colocam novos ingredientes na reflexão sobre o aparelho leitor de e-books em questão. Ao que me parece, nossa dificuldade de se posicionar sobre o sucesso ou não de um tipo de aparelho como esse é em grande medida devido a esta nossa confusão sobre os e-books. Até hoje não sabemos se eles vão se tornar um padrão, ou não, na circulação da informação, sobretudo das mais credenciadas e técnicas.

Poderíamos nos perguntar: por que os e-books não se tornaram um padrão?

Se a resposta for por conta das limitações técnicas, acredito que elas serão cada vez mais superadas, uma vez que os aparelhos digitais estão cada vez mais sofisticados e permitem soluções digitais que superam e muito as potencialidades do registro impresso.

Se a resposta sondar as questões dos direitos autorais e dos modelos de negócio, creio que se encontrará muito mais elementos interessantes para se pensar a questão. De acordo com um ponto de vista particular, acredito que a limitação do e-book está no fato de que nenhuma empresa, grupo comercial ou entidade assume toda a carga de trabalho e de atividades para a transição do formato impresso para o digital pois não vantagens comerciais diretas e imediatas para quem realizar esse duro e imenso trabalho. Vantagens existem, mas são pequenas em vista do grande volume de informações.

Além disto, poderíamos pensar: qual a viabilidade econômica deste projeto? ou, quem pagaria por este trabalho? Os seletos e exíguos consumidores de livros raros? As cotas de anúcios virtuais? Os grupos geeks de compartilhamento de arquivos?

Ao lado das dificuldades da digitalização dos livros antigos, temos a questão do trabalho editorial e autoral do lado dos livros novos. Um bom livro, fruto de talento, pesquisa, profissionais qualificados, revisão, tempo, seleção e informações precisas é algo que demanda trabalho, e como tal espera-se que esse seja remunerado. O digital nos coloca em posição problemática quanto a isto, pois a facilidade de sua reprodutibilidade põe em cheque a maioria dos modelos de negócio que conhecemos, que possibilitam a contrapartida financeira aos profissionais envolvidos na elaboração dos produtos culturais. Evoluimos muito pouco a este respeito. Sem defender os direitos autorais do modelo tradicional e sem excluir o papel negativo (explorador) das grandes corporações produtoras culturais, ainda desenvolvemos poucos modelos apropriados para lidar com a complexa equação de muitos produtores, muitos consumidores e registros digitais com alto poder reprodutivo e fácil e rápida disseminação.

Com isso, creio que a questão mais importante que nos resta é a de se saber como se tornará viável a consolidação dos profissionais envolvidos na produção dos e-books. Quando produzir um bom e-book for um negócio interessante cultural, profissional e financeiramente, a transição se dará de forma mais rápida e quase imperceptível. A partir disto, talvez os e-books terão um status equivalente aos livros impressos e poderão ser catalogados, consultados, manipulados e citados sem qualquer receio ou insatisfação. (saber se as travas, DRMs e os direitos autorais serão necessários para permitir isso, aí já é outra história).

A partir daí, e creio que só a partir desta situação resolvida, é que podemos discutir se os e-books necessitam de um aparelho próprio para serem manipulados. A tela e-ink me parece absolutamente necessária (quem, como eu, já está acostumado a ler nesses displays de notebooks sabe bem como a saúde da visão está a prêmio), mas também soa um pouco estranho um aparelho daquele tamanho execute apenas a função de ler documentos. Em breve a maioria das pessoas notará que a proliferação de aparelhos em nada favorece o consumidor: imaginem o sujeito tendo que carregar um notebook, um PDA, um Smartphone, um iPod, um e-book reader e mais todas as fontes e cabos e adaptadores de cada um dos aparelhos, sendo que a tecnologia e a função deles é muito parecida. Por que eu seria obrigado a comprar um e-book reader se essa tecnologia do e-ink poderia ser incluida no meu notebook ou PDA?

O que o caso Kindle nos coloca é que o aparelho em si nada revela sobre o debate da tecnologia que se coloca hoje. A grande dúvida nos parece é justamente a respeito do e-book e se saber como vender livros digitais pode se tornar um negócio viável do ponto de vista tecnológico, profissional e econômico.

Proibir a reprodução e o compartilhamento de e-books pode ser uma coisa conservadora, mesquinha, mas qual seria o modelo alternativo para viabilizar as vantagens econômicas de quem produz estes materiais?

Será que apenas o modelo autoral tradicional (restritivo) é a única forma de preservar a viabilidade da produção deste tipo de material?

Voltando ao assunto do Kindle, estas considerações nos mostram que o seu sucesso (ou não) está mais associado ao modelo de negócios de sua livraria virtual e à qualidade do material digital oferecido pela empresa. Com isso, diferente das resenhas tradicionais que vemos em sites de tecnologia, que abordam apenas o primeiro aspecto da questão, o tecnológico, teríamos mais dois, a saber: a questão do conteúdo (a qualidade do material produzido, a qualidade do e-book), e a qualidade do serviço (facilidade da compra do e-book, variedade de obras, a disponibilidade do serviço, sem quedas, rápido, com atualizações constantes, etc.). Será que a Amazon tem potencial para oferecer mesmo tudo isso? Ou, como ela viabilizará a participação de vários setores parceiros neste negócio? Como se vê, está em jogo muito mais coisas do que uma mera resenha técnica do aparelho.

Ao meu ver, situação muito semelhante se encontra no caso dos celulares e smartphones. Os aparelhos se tornam cada vez mais sofisticados, mas a produção de material para as novas máquinas incrementadas ainda é bastante limitada. Nestes momentos o encantamento da técnica parece hipnotizar o consumidor tecnológico.

Concluindo o texto, fica a idéia de que, mais importante do que saber se esta é mais uma novidade necessária em nosso cotidiano, ou apenas mais uma peça curiosa das invenções tecnológicas que não foram assimiladas, o lançamento deste produto aponta para necessidade de uma reconfiguração nas esferas de produção de conteúdo, nos modelos de negócio e suas relações com os suportes tecnológicos. Não basta avançar a passos largos no suporte tecnológico sem garantir o espaço daqueles profissionais que trabalham na produção de bom conteúdo e em modelos de negócios menos monopolizados e excludentes.

ps: um importante depoimento sobre a questão da fonte do aparelho, pode ser lido em português no portal do Terra.

Chamada para Porto Alegre -> Seminário Além das Redes de Colaboração: diversidade cultural e tecnologias do poder.

16/ Outubro/ 2007

Com certeza um evento que merece a divulgação e que irá debater em profundidade todas essas questões que envolvem a internet e seus impactos culturais. Abaixo um video com o professor da pós em Comunicação da Cásper Líbero, Sérgio Amadeu, que já vem há algum tempo se aprofundando bastante na temática.

Relacionados:

Link com mais informações sobre o evento.

Link para o blog do prof. Sérgio Amadeu

Link para o portal (incubadora fapesp) do prof. Imre Simon sobre Informação, Comunicação e a Sociedade do Conhecimento

Link para o portal de discussão do livro A Riqueza das Redes (também do prof. Simon)

Empacotar para Sobreviver

29/ Agosto/ 2007

É curioso muitas vezes notar como o que aparenta ser um debate técnico sobre a maior ou menor utilidade de certas ferramentas, consiste em grande medida, numa discussão sobre que tipo de modelo de vida ou que tipo de conjunto artístico é mais agradável ou não.

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Tomemos um breve exemplo: o computador. Discute-se infindavelmente se um sistema operacional é superior ao outro, ou em que medida este ou aquele outro permite mais ou menos liberdade ao usuário. Numa olhada breve acerca de todos, o que mais chama a atenção são suas semelhanças, uma vez que o modelo de utilizar as máquinas não variam muito, a despeito do software. As máquinas estão digitalizando todas as nossas informações e por isso estão paulatinamente centralizando (e monopolizando) todas as nossas atividades culturais. É uma caminho sem volta. O jeito de processar esses dados (“zeros e uns”) varia muito pouco.

O que parece variar não é exatamente a ferramenta (a tecnologia) mas sim o sonho que a ferramenta promete, o modelo de vida que ela aponta, o visual que ela oferece, o modo que ela dispõem as nossas coisas em formatos audio-visuais (idéias, fotos, videos, ícones, números, dados, músicas, recordações pessoais). Agora que os textos e as fotografias estão digitalizados, nós continuaremos a utilizar computadores para acessá-los, mas o modo como isso vai se dar é que é a grande incógnita. A tecnologia se sofistica para permitir que os dados sejam processador por um computador que caiba no bolso, ou que as informações trafeguem no ar, mas o que muda de modo radical ( e curiosamente de modo imperceptível) são os nossos costumes, os nossos hábitos com essas ferramentas, o valor que a elas atribuimos e o modo como nos projetamos nelas de modo a fundirmos nossas ordens simbólicas em seus mecanismos cada vez mais complexos e automatizados.

Quando alguém vende um computador, não está apenas negociando uma máquina que processa dados em determinada velocidade, que faz cálculos rápidos, guarda certo número de informações e pode render uma quantidade de lucro. Além de tudo isso, o que se vende é um sonho, de tudo aquilo que a máquina pode fazer e tudo aquilo o que aquele que a esta adquirindo pode se transformar. Um jovem pode sonhar que aquela máquina pode um dia ajudá-lo a criar e programar jogos, o que significaria uma expansão e uma catalização incrível de seu imaginário, com a possibilidade de concretizá-lo. Para um executivo, pode representar a possibilidade da construção do escritório perfeito, o aproveitamento total da informação e o controle total das ações e dos dados da empresa.

É evidente que muitas vezes os softwares automatizam conjuntos de ações em um único click, e esse tipo de evolução é inquestionável. O que gostaria de chamar a atenção é que tão importante quanto a elaboração técnica deste processo de automação das atividades, a produção dos sonhos e dos modelos que envolvem a máquina e seu uso representam uma etapa fundamental no processo de consolidação da máquina entre nós.

Uma vez que deixamos de lado um pouco o caráter técnico e estamos enfatizando a parte do imaginário e do sonho que faz parte da transformação tecnológica pela qual estamos passando, o que tudo isso tem a ver com a questão dos pacotes? Em primeiro lugar é necessário comentar um pouco sobre essa palavra: pacote.

Na acepção que utilizamos, o pacote não tem sentido pejorativo de um recipiente de papel no qual despejamos um número qualquer de objetos, para carregá-los ou jogá-los fora. A idéia hoje de empacotar coisas tem muito mais a ver com a questão de trabalhar idéias de modo a simplificá-las e as fazer convergir de modo a torná-las mais atrativas e assimiláveis. Nossa intuição inicial é a de que empacotar idéias é uma arte de filtrar, escavar, concatenar e reelaborar idéias de modo a criar pacotes que são como uma espécie de “idéia grande” que possui autonomia e que capta e seduz as pessoas.

A informática é um campo cheio de pacotes. Poderíamos começar exemplificando a questão pelos softwares, dizendo que são pacotes, mas talvez outros exemplos evidenciem isso de modo mais nítido. As comunidades virtuais, por exemplo. Em termos puramente técnicos, trata-se de uma aplicação de banco de dados no ambiente web. Transposta ao mundo social, ela envolve todo um imaginário de que é possível criar uma vida social por meio das articulações virtuais, tais como recados, disponibilização de fotos, preferências, referências culturais, debates, perfis, etc. Todo esse repertório que concerne ao mundo cultural e social é o que dá vida à sofisticada aplicação técnica; ao passo que a aplicação viabiliza em termos técnicos a existência da comunidade. Não se trata de uma relação excludente ou de predominância de uma parte sobre outra. O que podemos apontar aqui é que no que toca ao caráter cultural e social da aplicação, o que se realizou foi um empacotamento de idéias que anteriormente se encontravam dispersas e fragmentadas em indeterminados modelos e fontes. Recados, perfis, fóruns, recados, fotos já estavam dados do ponto de vista técnico na rede, mas a idéia de que era possível ter uma vida social complementar no ambiente virtual foi uma espécie de pacote que alguns visionários criaram e que as pessoas assimilaram. Faça amigos, conheça pessoas, compartilhe idéias, troque informações, etc foi um pacote que ao final ficou conhecido como Comunidades Virtuais.

A partir desta idéia de pacotes mais desenvolvida, creio ser possível pontuar, de acordo com um palpite pessoal, algumas tendências que irão se destacar num futuro próximo.

Uma das tendências que me parece forte atualmente é a idéia de que com avanço tecnológico, cada vez mais a importância recairá na questão do empacotamento de idéias e na criatividade que se criará em torno destes recursos que nossas máquinas cada vez mais poderosas nos oferecem. Não apenas pelo fato de que as máquinas se tornarão mais sofisticadas, mas sobretudo porque o papel e a importância da informação e o modo como a controlamos mudará. O empacotamento não significará somente a filtragem e a escolha das melhores idéias e aplicações, mas o modo como reunimos tudo isto e transformamos (de forma viável) num modelo de vida e numa visão de mundo assimilável. Seguindo adiante nesta reflexão, é possível que tenhamos equipamentos eletrônicos, softwares e sistemas de informações cada vez mais empacotados, o que significa dizer que serão eles conjuntos culturais completos com valores, percepções, modos de organização, modelos e filosofias de vida e de pensamento. Existirão tantas possibilidades para aquilo que convenhamos chamar de software que a própria idéia de software explodirá, restando apenas os pacotes culturais com os seus suportes técnicos padronizados. Neste momentos todos seremos programadores e ao mesmo tempo a profissão de programador se dissolverá.

Uma boa conversa para começar a discussão sobre a web

27/ Março/ 2007

Cronicamente Viável é um programa especialmente projetado sobre as bases da internet e planejado para discutir as modificações trazidas por essas novas ferramentas do mundo virtual. Marcelo Rubens Paiva e Marcelo Tás comandam um bate-papo sobre a influência das novas mídias na cultura e nos modos tradicionais de organização da sociedade. Demi Getschko, diretor do ICANN no Brasil, e a Psicanalista Betty Millan são os convidados que se propõem a discutir as transformações sociais e comportamentais que estas novas ferramentas estão trazendo.

Neste primeiro Programa, o tema proposto, inicialmente, foi as mudanças nas noções tradicionais de Tempo e Espaço e que tipo de modificação estas novas ferramentas da web impuseram. Entretanto, após uma fala breve de cada um dos dois convidados, o debate se desenvolve com uma abertura grande, passando sobre vários temas de forma descontraída e com a participação das perguntas dos espectadores e internautas.

A apresentação de Demi Getschko aborda essencialmente como essas mudanças tecnológicas que possibilitaram o desenvolvimento da internet (e, posteriormente, o surgimento da web) impõem uma pressão nos modelos tradicionais de negócios e nos meios de comunicação. O exemplo disto é a possibilidade dos usuários se transformarem em produtores de conteúdo na rede e publicadores de suas idéias, opiniões e informações. E, ao lado deste novo campo aberto ao usuário, uma necessidade de se repensar a questão dos direitos autorais por conta dessa velocidade da informação e a possibilidade de sua digitalização, o que torna impossível o controle de suas cópias e de sua circulação. Esta flexibilidade de conversão que caracteriza o documento digital faz com que a figura dos intermediários e demais atores que lucravam com esse comércio seja diminuida e que sua existência seja posta em cheque.

Tomando outra perspectiva, a Psicanalista Betty Millan argumenta que a web canalizou e estimulou uma característica própria da nossa personalidade que é expansão dos nossos imaginários no mundo virtual. Tradicionalmente o ser humano utilizou a palavra como grande ferramenta para dar asas a sua imaginação e à realização de seus mais variados desejos e imaginações. Os mundos virtuais já existiam antes mesmo da internet ou da web. Porém, o avanço oferecido por estas novas ferramentas catalizou nossas experiências, multiplicando as possibilidades de participação virtual e criando novos mecanismos de relacionamento que se desenvolvem no campo do imaginário e do simbólico, que são mais especificamente os e-mails em tempo real, os chats e os namoros e relacionamentos virtuais. Pondera Betty Millan que essa admiração pelo virtual, embora canalize e dê uma vazão positiva para uma esfera de nossa constituição – que são a nossa capacidade criativa e nosso imaginário confabulador – por outro lado, ele também nos retira do mundo “real” e nos satisfaz (de forma parcial e/ou falsa) apenas no plano individual. O realidade virtual é um mundo onde a satisfação simbólica é mais fácil pois os indivíduos não são obrigados a ter um contato direto e real, o qual, em regra, implica a necessidade de formas de aceitação, negociação e tolerância entre as identidades. Contudo, a satisfação simbólica muda pouco as realidades concretas e objetivas das pessoas, situação que gera muitas vezes uma sensação de frustração. Essa condição paradoxal do mundo virtual é percebida pelas reações ambíguas das pessoas, que muitas vezes sentem um profundo entusiasmo perante a rede, mas também sofrem profundas frustrações ao se lançar no meio virtual em busca da realização de seus mais variados anseios.

Após assistir o programa, fica-nos a impressão de que realmente estamos apenas no começo de um “longo debate” que é extremamente pertinente e necessário. De alguma maneira ele toca nos pontos principais, os quais, segundo a nossa opinião, serão a agenda comum dos debates que irão se suceder. Temos, de forma simplificada:

Um – Quais serão os impactos destes novos meios nos modelos de negócios existentes? Exemplos comuns: as redes de telefonia, os canais de televisão aberta, as grandes corporações de entretenimento, quais serão os novos arranjos desses atores? afinal, eles vão abandonar as formas tradicionais de transmissão e de controle das mídias? se sim, qual será o novo rearranjo?

Dois – Que tipos de conseqüências essa abertura de produção e publicação aos usuários vai desencadear nas formas tradicionais de produção e transmissão de informação e conhecimento? Exemplos: Qualquer pessoa pode virar jornalista, escritor, editor e multimídia? essa abertura não estaria misturando informações qualificadas com informações confusas e parciais? Qual impacto disto nas carreiras tradicionais e como ficam diante de novos arranjos como professores a distância, jornalistas free-lancers, publicitários por encomenda?

Três – É possível medir esses impactos a partir das novas subjetividades advindas desse processo? Afinal, tudo isso reformulou de maneira radical nossa subjetividade ou estamos numa situação de adaptação? Temos ou não o controle sobre o desenvolvimento e a elaboração destas identidades?

Como se vê, são questões muito amplas, todas verdadeiramente necessárias para nosso contexto. Estamos apenas no começo. Ainda há muito caminho pela frente e o tempo é o elemento que, ao que parece, a cada dia se torna mais escasso. Viva a velocidade da informação. Mais uma vez o link para o programa: http://tvuol.uol.com.br/ult2448u188.jhtm