É curioso muitas vezes notar como o que aparenta ser um debate técnico sobre a maior ou menor utilidade de certas ferramentas, consiste em grande medida, numa discussão sobre que tipo de modelo de vida ou que tipo de conjunto artístico é mais agradável ou não.

Tomemos um breve exemplo: o computador. Discute-se infindavelmente se um sistema operacional é superior ao outro, ou em que medida este ou aquele outro permite mais ou menos liberdade ao usuário. Numa olhada breve acerca de todos, o que mais chama a atenção são suas semelhanças, uma vez que o modelo de utilizar as máquinas não variam muito, a despeito do software. As máquinas estão digitalizando todas as nossas informações e por isso estão paulatinamente centralizando (e monopolizando) todas as nossas atividades culturais. É uma caminho sem volta. O jeito de processar esses dados (“zeros e uns”) varia muito pouco.
O que parece variar não é exatamente a ferramenta (a tecnologia) mas sim o sonho que a ferramenta promete, o modelo de vida que ela aponta, o visual que ela oferece, o modo que ela dispõem as nossas coisas em formatos audio-visuais (idéias, fotos, videos, ícones, números, dados, músicas, recordações pessoais). Agora que os textos e as fotografias estão digitalizados, nós continuaremos a utilizar computadores para acessá-los, mas o modo como isso vai se dar é que é a grande incógnita. A tecnologia se sofistica para permitir que os dados sejam processador por um computador que caiba no bolso, ou que as informações trafeguem no ar, mas o que muda de modo radical ( e curiosamente de modo imperceptível) são os nossos costumes, os nossos hábitos com essas ferramentas, o valor que a elas atribuimos e o modo como nos projetamos nelas de modo a fundirmos nossas ordens simbólicas em seus mecanismos cada vez mais complexos e automatizados.
Quando alguém vende um computador, não está apenas negociando uma máquina que processa dados em determinada velocidade, que faz cálculos rápidos, guarda certo número de informações e pode render uma quantidade de lucro. Além de tudo isso, o que se vende é um sonho, de tudo aquilo que a máquina pode fazer e tudo aquilo o que aquele que a esta adquirindo pode se transformar. Um jovem pode sonhar que aquela máquina pode um dia ajudá-lo a criar e programar jogos, o que significaria uma expansão e uma catalização incrível de seu imaginário, com a possibilidade de concretizá-lo. Para um executivo, pode representar a possibilidade da construção do escritório perfeito, o aproveitamento total da informação e o controle total das ações e dos dados da empresa.
É evidente que muitas vezes os softwares automatizam conjuntos de ações em um único click, e esse tipo de evolução é inquestionável. O que gostaria de chamar a atenção é que tão importante quanto a elaboração técnica deste processo de automação das atividades, a produção dos sonhos e dos modelos que envolvem a máquina e seu uso representam uma etapa fundamental no processo de consolidação da máquina entre nós.
Uma vez que deixamos de lado um pouco o caráter técnico e estamos enfatizando a parte do imaginário e do sonho que faz parte da transformação tecnológica pela qual estamos passando, o que tudo isso tem a ver com a questão dos pacotes? Em primeiro lugar é necessário comentar um pouco sobre essa palavra: pacote.
Na acepção que utilizamos, o pacote não tem sentido pejorativo de um recipiente de papel no qual despejamos um número qualquer de objetos, para carregá-los ou jogá-los fora. A idéia hoje de empacotar coisas tem muito mais a ver com a questão de trabalhar idéias de modo a simplificá-las e as fazer convergir de modo a torná-las mais atrativas e assimiláveis. Nossa intuição inicial é a de que empacotar idéias é uma arte de filtrar, escavar, concatenar e reelaborar idéias de modo a criar pacotes que são como uma espécie de “idéia grande” que possui autonomia e que capta e seduz as pessoas.
A informática é um campo cheio de pacotes. Poderíamos começar exemplificando a questão pelos softwares, dizendo que são pacotes, mas talvez outros exemplos evidenciem isso de modo mais nítido. As comunidades virtuais, por exemplo. Em termos puramente técnicos, trata-se de uma aplicação de banco de dados no ambiente web. Transposta ao mundo social, ela envolve todo um imaginário de que é possível criar uma vida social por meio das articulações virtuais, tais como recados, disponibilização de fotos, preferências, referências culturais, debates, perfis, etc. Todo esse repertório que concerne ao mundo cultural e social é o que dá vida à sofisticada aplicação técnica; ao passo que a aplicação viabiliza em termos técnicos a existência da comunidade. Não se trata de uma relação excludente ou de predominância de uma parte sobre outra. O que podemos apontar aqui é que no que toca ao caráter cultural e social da aplicação, o que se realizou foi um empacotamento de idéias que anteriormente se encontravam dispersas e fragmentadas em indeterminados modelos e fontes. Recados, perfis, fóruns, recados, fotos já estavam dados do ponto de vista técnico na rede, mas a idéia de que era possível ter uma vida social complementar no ambiente virtual foi uma espécie de pacote que alguns visionários criaram e que as pessoas assimilaram. Faça amigos, conheça pessoas, compartilhe idéias, troque informações, etc foi um pacote que ao final ficou conhecido como Comunidades Virtuais.
A partir desta idéia de pacotes mais desenvolvida, creio ser possível pontuar, de acordo com um palpite pessoal, algumas tendências que irão se destacar num futuro próximo.
Uma das tendências que me parece forte atualmente é a idéia de que com avanço tecnológico, cada vez mais a importância recairá na questão do empacotamento de idéias e na criatividade que se criará em torno destes recursos que nossas máquinas cada vez mais poderosas nos oferecem. Não apenas pelo fato de que as máquinas se tornarão mais sofisticadas, mas sobretudo porque o papel e a importância da informação e o modo como a controlamos mudará. O empacotamento não significará somente a filtragem e a escolha das melhores idéias e aplicações, mas o modo como reunimos tudo isto e transformamos (de forma viável) num modelo de vida e numa visão de mundo assimilável. Seguindo adiante nesta reflexão, é possível que tenhamos equipamentos eletrônicos, softwares e sistemas de informações cada vez mais empacotados, o que significa dizer que serão eles conjuntos culturais completos com valores, percepções, modos de organização, modelos e filosofias de vida e de pensamento. Existirão tantas possibilidades para aquilo que convenhamos chamar de software que a própria idéia de software explodirá, restando apenas os pacotes culturais com os seus suportes técnicos padronizados. Neste momentos todos seremos programadores e ao mesmo tempo a profissão de programador se dissolverá.