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Olhar de fora: artigo do El País sobre telefonia móvel no Brasil

10/ Julho/ 2008

Saiu um interessante artigo no jornal espanhol, El País, discutindo os limites da expansão dos celulares e da conexão com a internet que estes novos e modernos aparelhos estão permitindo em escala cada vez maior. O artigo discute que o mundo inteiro tem se maravilhado com o rápido avanço da tecnologia destes aparelhos, mas que por trás dos gadgets maravilhosos, dos sonhos e das utopias que as empresas procuram pintar via marketing maciço, as possibilidades reais desta expansão são muito mais prosaicas do que parecem. (leia o artigo aqui…)

Para discutir essa contradição, o exemplo utilizado é o Brasil. No Brasil, em vista de sua condição de país periférico, há um número grande de celulares. Aproximadamente 60% da população possui aparelho. Mas o dado otimista esconde boa parte da real situação. O uso de tais aparelhos é extremamente precário. É o que na gíria chamamos de ( um tanto preconceituosamente ) de “pai de santo”, ou seja, de aparelho celular que só serve para “receber” chamadas. 80% dos chips são pré-pagos, poucos brasileiros usam para fazer ligações. Raríssimos 3% acessam a internet. Não de todo vinculado a isto, mas certamente relacionado, o Brasil é um dos países que possuem as tarifas mais caras do mundo em termos de telefonia móvel. Traduzindo, nosso acesso é ruim e caro. Usamos pouco e mal as novas ferramentas tecnológicas: resultado, não estamos tão conectados como imaginamos. Detalhe é que as empresas, ao contrário de se adaptarem à realidade do país, ao oferecer planos mais em conta e popularizar o uso, criar alternativas viáveis, preferem continuar a vender caro e para poucos os serviços mais avançados de conexão.

Aos que acreditam que isso é um mero detalhe, creio que estamos diante de um significativo exemplo de como será o acesso do Brasil nesse admirável mundo novo da tecnologia.

Internet, Informação, Espaço Público e Democracia: uma referência obrigatória. Parte I

14/ Setembro/ 2007

Uma das questões mais candentes que o avanço da rede mundial de computadores tem suscitado é a respeito de seus impactos nos processos de circulação da informação e sobre possíveis mudanças do papel exercido pelos meios de comunicação nas sociedades contemporâneas. Há muita reflexão em torno de se saber em que medida a mídia será obrigada a se reformular (modificar seus modos tradicionais de produzir e transmitir informação, bem como a respeito de seu papel social nesse processo) e também se discute sobre a possibilidade de novos atores sociais (até então afastados deste processo de produção de informação), com o advento das tecnologias oferecidas pela informática, capacidades de produzir e participar deste processo de produção da informação que circula nas sociedades.

Evidentemente, este debate tem inúmeros enfoques possíveis. Desde pessoas que debatem com entusiasmo acerca das novas tecnologias e de seus promissores potenciais, enquanto outros preferem enfatizar as questões econômicas e/ou tecnológicas que envolvem corporações, linguagens de programação, softwares, sistemas operacionais, etc.

No meio deste panorama inabarcável de abordagens diferentes, tomando por base a web brasileira (sobretudo a partir de seus blogs de tecnologia, sites de notícias, portais, comunidades sociais) a impressão mais forte que fica é a de que o que é mais discutido são os aspectos tecnológicos e econômicos, dentro de uma razoável variação. Muito do que se escreve parece compor um quadro sobre o nosso deslumbramento perante os novos equipamentos tecnológicos acompanhado de confissões públicas sobre os prazeres do consumo tecnológico.

Esta ênfase sobre equipamentos e a avidez por produtos cada vez mais maravilhosos pode, por sua vez, ser interpretado justamente como uma carência (ou mesmo incapacidade) de discussão de outros aspectos que envolvem essas mesmas tecnologias e produtos, que são os seus aspectos políticos, sociais e históricos.

Uma discussão que quase não vemos em portais, sites ou blogs de grande porte, são matérias tratando sobre qual o possível tipo de resultado desta comunicação produzida por essas novas e maravilhosas máquinas. Chama-se muito a atenção para os aparelhos que possibilitam formas de comunicação cada vez mais autônomas, mas em raros casos são abordados os resultados destas formas de comunicação. Em geral, parece que tudo é consumido de modo particular (a comunicação entre particulares que não tem impacto nenhum nas relações sociais).

Saindo um pouco deste terreno árido, é possível encontrar algumas discussões interessantes que abordam a relação entre esses novos meios de comunicação (internet, por exemplo) e as questões políticas contemporâneas, no caso especial, a questão do Espaço Público.

De modo simplificado, o Espaço Público é considerado um dos pilares da política moderna ocidental. Uma das suas idéias fundamentais afirma que a possibilidade que os cidadãos têm de discutir os problemas de suas sociedades, a possibilidade de expor suas opiniões sobre a sua realidade, a sua possibilidade de participação e decisão nos problemas e soluções dos conflitos, tudo isso está intimamente ligado ao conceito de Espaço Público. A esfera pública, também assim chamada, cumpre esse importante papel de permitir que todos os cidadãos possam ter os seus pontos de vista expressos, e que as decisões políticas de uma sociedade sejam decididas de forma pública e coletiva, explicitando todo o processo pelo qual certas decisões foram tomadas e quais motivos levaram ao abandono de tais e tais propostas, etc.

Em grande medida, a nossa referência acerca do Espaço Público confunde-se com os próprios locais públicos. As praças ou os prédios institucionais, por exemplo. Sem muita reflexão, nossa intuição (não de todo equivocada) sobre atos públicos, em espaços públicos está bastante associada aos protestos públicos, tais como passeatas, paralisações, reivindicações públicas, e demais formas de ações coletivas.

Porém, por sua própria definição, o Espaço Público não necessita estar restrito aos locais que tradicionamente deram ensejo a manifestações públicas. Desde que cumpra a sua função de permitir aos cidadãos a exposição de suas demandas, a possibilidade de debater questões de ordem pública, desde que este espaço possa estimular a diversidade de pontos de vista, a tolerância das diferentes orientações culturais, religiosas e políticas, na medida em que possibilita o cumprimento de tudo isto, qualquer espaço pode se transformar num Espaço Público. Evidentemente, dentre os muitos candidatos, não estamos falando de outro senão da Internet como o mais novo espaço virtual agora candidato a Espaço Público de nossa contemporaneidade.

Agora que temos uma contextualização, bastante provisória diga-se de passagem, sobre como a internet pode ser abordada a respeito desta discussão sobre o Espaço Público, neste ponto podemos fazer uma referência sem nenhuma hesitação a um dos pensadores que mais profundidade trataram deste temas, o prof. Bernardo Sorj . Em seu site, para nossa sorte, o professor Sorj disponibiliza vários textos e artigos que fazem de seu espaço uma referência obrigatória para quem deseja abordar este assunto. É a ele que remeto antes de continuar com a segunda parte deste ensaio. Desta forma, os leitores interessados poderão formular os seus conceitos e participar desta discussão de forma mais interessada e participativa.