Comentários sobre a entrevista com Ted Nelson no Roda Viva; ou, um visionário em busca de um software.

14/ Junho/ 2007

Não tenho certeza se essa entrevista (11/06) já foi exibida em outra ocasião na TV Cultura, mas como foi o meu primeiro contato, vou tratá-la como se fosse uma exibição inédita.

ted-nelson.jpg

Também gostaria de alertar que minha intenção era redigir um texto mais elaborado, com todos os encadeamentos necessários. Mas, como ando com pouco tempo disponível para cuidar do blog, e tendo em vista também a questão do tempo e do contexto da temática, vou publicar aqui o rascunho que fiz enquanto assistia a entrevista. Aproveitando as maravilhas tecnológicas, lá estava eu digitando os fragmentos dispersos enquanto assistia o programa. Abaixo segue o rascunho tal como ficou, sem muita edição. Em grande medida, tentei transcrever as idéias de Ted Nelson, mas há partes em que tive que apelar para a memória e não sei se nesse tipo de atitude não acabei mudando algumas idéias do autor. As anotações misturam fragmentos do Ted, fragmentos de perguntas, e algumas intervenções reflexivas minhas…

Quem assistiu entenderá boa parte dos meus comentários. Quem ainda não teve a oportunidade, pode procurar o vídeo pois Ted Nelson é uma figura muita interessante.

Ele tem mania de gesticular o tempo todo, suas idéias são sempre viajadas, ele não se contenta com coisas convencionais… está sempre em busca de coisas diferentes, padrões diferentes, pensamentos e modos de organização distintos. Além disso, ele é super descontraído. Entretanto, curiosamente ele não têm muito o costume de concordar  com seus interlocutores apenas por educação, se ele não concorda ou discorda do interlocutor, o “facão” vem na hora.

Em geral, me parece que a entrevista foi atravessada, do começo ao fim, de uma sensação de constrangimento entre o entrevistado e os entrevistadores. De um lado, os entrevistadores estavam se sentindo um pouco amendrontados e tímidos perante o pensador em destaque. De outro, parecia que Ted Nelson queria se expandir mais e viajar mais nas suas falas e respostas, mas era sempre meio que impedido disto por meio de perguntas convencionais que tinha que responder.
O senhor acredita que os usuários vão adotar o seu sistema de navegação de internet?

Não, apenas 1% talvez.

mac, linux, win são todos iguais… todos baseados na hierarquia e na representacao do papel

Há tantos aspectos políticos em se saber de como manter a rede livre que é praticamente impossível saber o que vai acontecer. (em caso de guerra… é extremamente facil exterminar a internet)

o que é mais importante para a expansao deste sistema
tudo são computadores o que segura a expansão das tecnologias e os softwares são os interesses comerciais das empresas.

não gosto da palavra tecnologia

programas de chat, sistemas operacionais como o Mac e Windows são paixoes dos seus criadores … win é um pacote os pacotes se realizam com suporte tecnologico mas não são tecnologia

o sistema de arquivos e a interface visual é a mesma dos anos setenta: lin, mac, win são todos iguais

as pessoas usam a web como uma revista… as pessoas ainda não usam para expandir seus relacionamentos… mudou com a web 2.0?

web 2.0 é um slogam, não sei o que significa

um software é como um filme

Steve Jobs é um grande diretor de cinema

o que é o futuro para o senhor: não faço idéia

acredito que a word wide web fez muito mais em 30 anos do que todas as religiões

dildonics…. há mais problemas éticos do que técnicos

mídias são criadas

a teve começou com uma grande proposta e se tornou numa midia de baixo nivel

a maquina é uma caixa vazia ela não tem nenhuma utilidade em si mesma

na internet imitamos tudo (o formato dos jornais, das radios, das revistas, das empresas), no Xanadu não

o computador permite a autopublicação

não entendo o myspace

a pergunta é: o que pode ser salvo?

o navegador é o limitador do uso da internet

qualquer um pode criar um programa para a internet

sourceforge é o local do software livre

achar o ponto de corte da internet é o dificil

a web semantica é uma ideia sem futuro

minha ideia foi aproveitar as diferencas entre os entendimentos e não simular um consenso

Xanadu:

um banco de dados pré-carregado que centraliza todas as informações.

Seria o pré-google? anti-google? pós-google???

sempre houve uma sobrecarga de informaçoes somente agora que tudo se tornou mais visível é que as pessoas passaram a perceber isso

criar um novo conceito é muito dificil

a sua ideia não é um pouco do esperanto?

Rodolfo Lucena pergunta: como o senhor viabilizaria este modo diferente da internet?

“A todo momento temos a impressão um tanto quanto constrangedora de que ted nelson é um visionário em busca de um software: suas idéias são geniais, mas na hora de mostrar o software, ou sei seja lá o que for, a coisa não aparece…”

O senhor então propõe uma nova forma de acesso na internet, uma nova experiência: o que esta sendo feito em termos de empresa para viabilizar isso?

invisto todo o meu dinheiro no meu proprio software, não quero ter que convencer uma empresa a se adaptar ao meu jeito

A internet é muito estática e convencional:

o que vejo é uma série de folhas de papel

steve jobs é um grande diretor de cinema

acredito no potencial educativo da internet, mas não do jeito que está hoje

o processo educativo são hierárquicos, uma infinita hierarquia

quero fazer filmes paralelos: a busca da simultaneidade.

Resumindo a pauta:

O modo tradicional de navegar (introdução do tema)

Por que a internet é limitada? (primeira bateria de perguntas)

Quais as suas propostas para mudar os modelos tradicionais de internet (desenvolvimento do programa)

Quais as opiniões e perspectivas de Ted Nelson sobre o futuro da rede.
(meio e final da entrevista)

6 Respostas para “Comentários sobre a entrevista com Ted Nelson no Roda Viva; ou, um visionário em busca de um software.”

  1. Christian Diz:

    A Web Semântica não é uma idéia sem futuro. É só olhar para os textos como se olha para a Web. Com certeza ninguém vai dizer que a Web não tem futuro, né?


  2. Com certeza Cristian, não existe outro caminho para a Web senão uma web semântica (qualquer que seja o padrão que consiga vencer a disputa). De fato, acabei registrando esse fragmento de fala de Ted Nelson justamente por seu caráter contraditório e, por que não estranho. Digo isso por que me parece que toda a piração do Ted Nelson com o hipertexto caminha totalmente dentro de uma web semântica, no sentido em que as palavras estão conectadas por links em infinitos planos. Daí que aparece a graça da fala do nosso visionário: o que ele não admite é o modelo tal qual Tim Berners Lee está desenvolvendo (e cá pra nós, este último tem realizado muito mais coisas que o Nelson). Em sua, tal comentário tem um quê de dor de cotovelo mesmo.


  3. Amigo Cristian,

    Acabou de conferir de mais perto o belíssimo trabalho que a empresa brasileira cortex-intelligence desenvolveu e fiquei realmente impressionado com a qualidade e a proposta ali apresentada. Não sei ao certo se o objetivo da empresa se dá apenas em âmbito empresarial, mas acredito que se vcs lançarem um serviço deste tipo, voltado para grandes volumes de informação, em escala global, certamente terão um grande retorno.

  4. Raquel Longhi Diz:

    Ted Nelson tem razão quando busca libertar a Internet do modelo do impresso; é por aí, a meu ver, que as coisas realmente se desenvolvem criativamente. Mesmo que a cultura do impresso tenha sido o modelo para o hipertexto, num primeiro momento, acho que já é hora de ir além. A idéia do link bi-direcional, ou multi-direcional, foi atingida por um software de criação em hipertexto, o Storyspace, sendo definido como link condicional. Quando transposta para a WWW, entretanto, esta possibilidade não se efetiva, ou seja, trata-se de uma tecnologia permitida somente no modelo de software stand-alone. Neste sentido, esta possibilidade seria o que está faltando desenvolver na WWW em relação ao futuro do desenvolvimento da tecnologia do hipertexto. Por aí, tenho certeza de que começaríamos a sair do papel…


  5. Cara Raquel,

    seu comentário é extremamente pertinente. As informações que vc passou me deixaram muito curioso, pois não conheço grande parte das referências que vc cita. Gostaria de conhecer mais sobre esse software e sobre outras coisas relacionadas ao hipertexto e à navegação não linear. Vc têm algo escrito sobre isso? Se tiver, mande a referência e se achar interessante, gostaria muito de ver uma contribuição sua publicada aqui no Web Cultura. O que acha?

    Abraço

  6. Raquel Longhi Diz:

    Caro Rodolfo,

    tenho estudado o hipertexto enquanto narrativa desde meu mestrado, que fiz na UFRGS – a dissertação se chama “Matáforas e labirintos: a narrativa em hipertexto na internet”, e não está online. Mas a tese de doutorado, “Escritura em hipertexto: uma abordagem do Storyspace”, está online, no site da PUC de SP, onde foi defendida, em 2004. Na tese, eu analiso mais profundamente o Storyspace, e, a partir de suas características técnicas, faço um estudo da criação em hipertexto. Está na URL: http://de.scientificcommons.org/raquel_ritter_longhi. Tb há um artigo sobre uma hiperficção em Storyspace, publicada em PDF em:
    www6.ufrgs.br/emquestao/pdf_2005_v11_n1/7_hipertexto.pdf
    Tenho vários artigos publicados, em revistas acadêmicas online ou impressas, e seria bacana publicar no Web Cultura também, obrigada.
    Meu email, para mais contatos, é: raqlonghi@gmail.com. um abraço!


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