Uma boa conversa para começar a discussão sobre a web

27/ Março/ 2007

Cronicamente Viável é um programa especialmente projetado sobre as bases da internet e planejado para discutir as modificações trazidas por essas novas ferramentas do mundo virtual. Marcelo Rubens Paiva e Marcelo Tás comandam um bate-papo sobre a influência das novas mídias na cultura e nos modos tradicionais de organização da sociedade. Demi Getschko, diretor do ICANN no Brasil, e a Psicanalista Betty Millan são os convidados que se propõem a discutir as transformações sociais e comportamentais que estas novas ferramentas estão trazendo.

Neste primeiro Programa, o tema proposto, inicialmente, foi as mudanças nas noções tradicionais de Tempo e Espaço e que tipo de modificação estas novas ferramentas da web impuseram. Entretanto, após uma fala breve de cada um dos dois convidados, o debate se desenvolve com uma abertura grande, passando sobre vários temas de forma descontraída e com a participação das perguntas dos espectadores e internautas.

A apresentação de Demi Getschko aborda essencialmente como essas mudanças tecnológicas que possibilitaram o desenvolvimento da internet (e, posteriormente, o surgimento da web) impõem uma pressão nos modelos tradicionais de negócios e nos meios de comunicação. O exemplo disto é a possibilidade dos usuários se transformarem em produtores de conteúdo na rede e publicadores de suas idéias, opiniões e informações. E, ao lado deste novo campo aberto ao usuário, uma necessidade de se repensar a questão dos direitos autorais por conta dessa velocidade da informação e a possibilidade de sua digitalização, o que torna impossível o controle de suas cópias e de sua circulação. Esta flexibilidade de conversão que caracteriza o documento digital faz com que a figura dos intermediários e demais atores que lucravam com esse comércio seja diminuida e que sua existência seja posta em cheque.

Tomando outra perspectiva, a Psicanalista Betty Millan argumenta que a web canalizou e estimulou uma característica própria da nossa personalidade que é expansão dos nossos imaginários no mundo virtual. Tradicionalmente o ser humano utilizou a palavra como grande ferramenta para dar asas a sua imaginação e à realização de seus mais variados desejos e imaginações. Os mundos virtuais já existiam antes mesmo da internet ou da web. Porém, o avanço oferecido por estas novas ferramentas catalizou nossas experiências, multiplicando as possibilidades de participação virtual e criando novos mecanismos de relacionamento que se desenvolvem no campo do imaginário e do simbólico, que são mais especificamente os e-mails em tempo real, os chats e os namoros e relacionamentos virtuais. Pondera Betty Millan que essa admiração pelo virtual, embora canalize e dê uma vazão positiva para uma esfera de nossa constituição – que são a nossa capacidade criativa e nosso imaginário confabulador – por outro lado, ele também nos retira do mundo “real” e nos satisfaz (de forma parcial e/ou falsa) apenas no plano individual. O realidade virtual é um mundo onde a satisfação simbólica é mais fácil pois os indivíduos não são obrigados a ter um contato direto e real, o qual, em regra, implica a necessidade de formas de aceitação, negociação e tolerância entre as identidades. Contudo, a satisfação simbólica muda pouco as realidades concretas e objetivas das pessoas, situação que gera muitas vezes uma sensação de frustração. Essa condição paradoxal do mundo virtual é percebida pelas reações ambíguas das pessoas, que muitas vezes sentem um profundo entusiasmo perante a rede, mas também sofrem profundas frustrações ao se lançar no meio virtual em busca da realização de seus mais variados anseios.

Após assistir o programa, fica-nos a impressão de que realmente estamos apenas no começo de um “longo debate” que é extremamente pertinente e necessário. De alguma maneira ele toca nos pontos principais, os quais, segundo a nossa opinião, serão a agenda comum dos debates que irão se suceder. Temos, de forma simplificada:

Um – Quais serão os impactos destes novos meios nos modelos de negócios existentes? Exemplos comuns: as redes de telefonia, os canais de televisão aberta, as grandes corporações de entretenimento, quais serão os novos arranjos desses atores? afinal, eles vão abandonar as formas tradicionais de transmissão e de controle das mídias? se sim, qual será o novo rearranjo?

Dois – Que tipos de conseqüências essa abertura de produção e publicação aos usuários vai desencadear nas formas tradicionais de produção e transmissão de informação e conhecimento? Exemplos: Qualquer pessoa pode virar jornalista, escritor, editor e multimídia? essa abertura não estaria misturando informações qualificadas com informações confusas e parciais? Qual impacto disto nas carreiras tradicionais e como ficam diante de novos arranjos como professores a distância, jornalistas free-lancers, publicitários por encomenda?

Três – É possível medir esses impactos a partir das novas subjetividades advindas desse processo? Afinal, tudo isso reformulou de maneira radical nossa subjetividade ou estamos numa situação de adaptação? Temos ou não o controle sobre o desenvolvimento e a elaboração destas identidades?

Como se vê, são questões muito amplas, todas verdadeiramente necessárias para nosso contexto. Estamos apenas no começo. Ainda há muito caminho pela frente e o tempo é o elemento que, ao que parece, a cada dia se torna mais escasso. Viva a velocidade da informação. Mais uma vez o link para o programa: http://tvuol.uol.com.br/ult2448u188.jhtm

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